Cubanos desligados do Mais Médicos Brasil relatam informalidade e exílio

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Cubanos que trabalhavam no programa Mais Médicos dizem agora viver o desamparo. Desligados das funções, eles estão subempregados ou desempregados e afirmam que não podem retornar para a ilha caribenha. Segundo eles, o governo de Cuba considera que quem não retornou imediatamente ao país depois da dispensa do programa federal é um desertor e, portanto, deve cumprir exílio de oito anos. Nenhuma autoridade do país foi encontrada pelo G1 para comentar o caso.

No estado, cubanos contam que foram mandados embora do Mais Médicos logo depois de irem à Justiça para tentar receber o salário integral do programa, de R$ 11,8 mil. Pelo acordo de cooperação entre os governos brasileiro e cubano, o dinheiro é enviado integralmente ao governo de Cuba, que paga cerca de 30% do valor aos médicos.

"Se voltássemos, teríamos que ficar cinco anos sem poder sair de Cuba. Temos o direito de trabalhar sem o intermédio do governo, não temos? Para onde vai esse dinheiro que tiram da gente? Ninguém sabe", afirma Yanelis Miranda Herrera, umas das que entrou com processo. "Quem está lá [em Cuba] não vê nenhum investimento na saúde. Os hospitais estão com as portas caindo aos pedaços, não tem nem uma tala para imobilizar quem sofreu fratura", diz.

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Yanelis foi dispensada do Mais Médicos em julho de 2017, um ano após ser diagnosticada com trombose venosa cerebral – doença que compromete a circulação de sangue no cérebro e pode levar à morte. Ela trabalhava em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba. "Ninguém levou em conta o meu quadro ou tudo que fiz pela população daqui. Simplesmente fui chamada pelo chefe da Opas, que me disse: 'Doutora, você está desligada do programa porque entrou com um processo contra o governo cubano. Você vai me dizer a melhor data para que termine tudo aqui, vão te mandar a passagem e você vai voltar para Cuba. Acabou'". "Eu respondi que não poderia voltar, porque minha doença me impedia de ficar em um avião por 9 horas. Ele respondeu: 'Não sei, não é meu problema, você precisa voltar'", relata.

Ela ficou. Após a demissão, deixou o apartamento em que morava com o marido brasileiro e o filho de oito anos e foi ocupar um quarto na casa da sogra, em Curitiba. Até hoje está desempregada. "Estou procurando emprego de telefonista ou secretária, mas ninguém aceita uma médica nessa função. O que me resta é estudar, todos os dias, para revalidar meu diploma".

Registro do CRM

Fora do Mais Médicos, os estrangeiros não podem exercer a profissão sem registro do Conselho Regional de Medicina (CRM). Para isso, eles precisam de aprovação no Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeira (Revalida).

O exame é sempre realizado em duas etapas. A primeira consiste em uma prova com 100 questões múltipla escolha. Já a segunda é uma prova clínica, na qual os candidatos passam por diversas estações que simulam atendimentos a pacientes.

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